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Autor Tópico: Américo Cortez Pinto  (Lida 1003 vezes)
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« em: Dezembro 11, 2007, 01:34:57 »

AMÉRICO CORTEZ PINTO
[Leiria, 1896 - Lisboa, 1979] 
O seu primeiro livro poético data da verde adolescência, que, por entre ecos de Junqueiro e dos neo-românticos jacobinos, se reflecte no título e no corpo textual. Por isso, Lágrimas e Sorrisos (1912) é depois repudiado pelo autor, mau grado certa destreza formal de que dava sinal. Em Coimbra, onde se forma em Medicina, Cortez Pinto está entre os que fundam a revista Ícaro, efémera mas significativa publicação (1919-1920) da heterogeneidade esteticista e neo-romântica então reinante. É essa, naturalmente, a situação estético-literária do segundo livro que Cortez Pinto já publicara em 1918 (Senhora da Renúncia, Seguida do Barba-Azul - Poema de Feitiçarias Medievais) e a indecisão de projectos que as obras anunciadas reflectem: de um lado, O Poema do Helenismo e A Apoteose dos Sentidos, promessas de modulação neopaganizantes da euforia naturista e hedonista própria do neo-romântismo vitalista, nada condizentes com a reorientação tradicionalista e ascética da obra futura; de outro lado, Rimances sobre a Vida do Rei Poeta e da Rainha Santa e Livro de Vilancetes, denunciando preferências temáticas e formais depois parcialmente confirmadas. Mais do que colectânea de poesias dispersas, o livro de 1918 releva de uma ambição poemática que doravante será apanágio de Cortez Pinto e que transparece em breves macrotextos, com destaque para as sequências de sonetos de redondilha "Senhora da Renúncia" e "Barba-Azul". Esta organização poemática subserve, no fundo, a instrumentalização dos elementos temáticos e estilísticos de matriz finissecular a uma poética neo-romântica ("Prólogo") e a uma cognata edificação espiritual. Com efeito, tanto aliás, quanto o tríptico "Bailado das formas" (com seu virtuosismo de instrumentação verbal) ou o díptico "Beleza", aqueles poemetos desenvolvem-se como produtos de um epígono de Eugénio de Castro, o primeiro com o sumptuarismo decorativo, o esteticismo túrbido, o preciosismo lexical, o segundo com a bizarria sado-satânica e o exotismo mediévico da história de Gil de Rais. Mas ambos reconvertem essa experiência em escarmento moral e em apologia da conversão geracional à piedade cristã. Também em Poema da Tentação - Nova Teoria da Humildade (1922) essa matriz finissecular é ao mesmo tempo omnipresente e ultrapassada; só que agora a integração superadora numa poética neo-romântica obsessivamente polarizada pela ascese cristã vê-se mediatizada pela vertigem paradoxal de protagonismo totalitário do eu e de descentramento desse eu própria do modernismo orfeico e das suas adjacências (com aqueles inerentes reflexos na imagística e na estilística da deixis pessoal e possessiva que mal despontavam em Senhora da Renúncia). Durante cerca de dois decénios, Cortez Pinto pareceu cercear a vocação de criador poético. De longe em longe, uma ou outra composição lírica saía numa revista ou num jornal, enquanto o seu autor se empenhava em actividades profissionais e em funções públicas (inspector de Saúde Escolar, director do Instituto Português de Reumatologia, deputado em legislaturas do Estado Novo, etc.) e produzia a ampla bibliografia derivada da sua formação médica (que o levou até, tardiamente, a publicar em verso didáctico uns Mandamentos de Saúde para os Rapazes das Escolas), das suas opções políticas como intelectual nacionalista, do fervor do seu espírito religioso, da delicadeza da sua sensibilidade perante as artes plásticas, das suas afinidades electivas (raízes e aspirações) com outros poetas portugueses, da devoção pela língua pátria (em particular pela fraseologia e pelo léxico populares). Mas em 1941 arrebata o Prémio de Poesia Antero de Quental com o livro A Alma e o Deserto, obra de continuada ansiedade espiritual, muito despojada da herança finissecular, discreta prossecussora das ousadias modernistas. O macrotexto que no interior do livro tem igual título ilustra a exploração psicológico-moral e metafísico-soteriológica de tópicos do imaginário histórico e maravilhoso do neo-romantismo lusitanista (a sebástica "Batalha das sombras", "A Nau Catrineta", a "Sereia", etc.). A. Cortez Pinto é autor de numerosos trabalhos de índole médico-social, de investigação histórica e hagiológica, de formação cívica e doutrinária. 

(in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1990)

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« Responder #1 em: Dezembro 11, 2007, 01:35:31 »

Livros de Américo Cortez Pinto:

Lágrimas e Sorrisos, 1912
Senhora da Renúncia, Seguida do Barba Azul - Poema de Feitiçarias Medievais, 1918
Poema da Tentação - Nova Teoria da Humildade, 1922
O Ensino da Língua Pátria, 1936
O Valor da Vontade na História Nacional, 1938
A Alma e o Deserto, 1941
Mandamentos de Saúde para os Rapazes das Escolas, 1941
Da Famosa Arte da Imprimissão, 1948
Afonso Lopes Vieira, 1952
O Mundo, O Espírito da Pátria e a Grandeza de Deus dentro da Alma Dum Poeta, 1953
Os Fazedores da Língua e o Preceptorado de Camões, 1953
A Presença da Virgem na Literatura Portuguesa, 1953
O Conde de Monsaraz, 1953
Portugal e o Preceptorado do Oriente, 1953
Talent de Bien faire: A Divisa do Infante e a Criação do Estado da Índia, 1955
Santos de Portugal, 1956
O Santo de Lisboa e o Infante de Sagres, 1960
António Correia de Oliveira, 1961
Raízes Históricas, Humanísticas e Científicas da Unidade do Mundo Português, 1965
Meditações Filológicas em volta do Termo "Páscoa", 1965
Trocas e Baldrocas, 1969
Eça de Queirós em Leiria, 1970
Origens Históricas e Filológicas de Quatro Expressões Populares de Carácter Gírio, 1970
Diónisos, Poeta e Rei, 1982

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« Responder #2 em: Dezembro 11, 2007, 01:36:59 »

Coimbra, menina e moça....

Na verdade o nome de Américo Cortez Pinto, tal como a sua obra literária, estão de há muito sepultados no esquecimento. Ninguém saberá de "Lágrimas e Sorrisos", ou de "A Alma e o Deserto", e mesmo o "Dyonisos", esse magnífico trabalho sobre El-Rei D. Dinis, passou despercebido nas praças literárias.
E todavia... lembrei-me depois de publicar o postal anterior: quem haverá aí que não tenha já cantado "Coimbra, menina e moça/ rouxinol de Bernardim/ não há terra como a nossa/ não há no mundo outra assim..."
A canção, lançada para o grande público por Edmundo Bettencourt, cantor maior que também foi poeta dos maiores, e posteriormente cantada por quase todos os cantores de Coimbra, tem uma história simples: nasceu do trabalho de composição musical de Fausto Frazão, ajudado pelo guitarrista Américo, quando da preparação da récita do quinto ano de Medicina de 1919/1920, em que o primeiro cantou e encantou, acompanhado pelo segundo.
Assim mesmo: a música é de Fausto Frazão, as quadras são de Américo Cortez Pinto. O primeiro veio a fazer vida em Angola, onde chegou a ser Presidente da Câmara de Benguela. Morreu muito cedo, em 1946. Era portanto também um colonialista infame, segundo os cânones vigentes. No dizer de Cortez Pinto, Fausto Frazão foi a melhor voz do seu tempo, a par de António Menano.
Deixo aqui estas curiosidades, até para que algum jovem romântico de agora, se ainda os há, possa lembrar-se ao entoar a canção de Coimbra ("a sorrir de madrugada/ de mãos postas à tardinha/ és Inês a bem amada/ e Santa como a Rainha") que está a cantar versos de um fascista já esquecido.
http://fascismoemrede.blogspot.com/2004/04/coimbra-menina-e-moa.html

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« Responder #3 em: Dezembro 11, 2007, 01:37:28 »

O último poema de Américo Cortez Pinto?

No ano de 1974 já o poeta e erudito Américo Cortez Pinto contava 78 anos, e estava há muito retirado dos meios literários. Só seria conhecido talvez entre a sua gente, na bela região entre Leiria e as Cortes, com São Pedro de Muel, onde permanecia ele e a lembrança do amigo Afonso Lopes Vieira.
Toda a poesia conhecida de Américo Cortez Pinto datava de muito antes; basta dizer que o livro que representa a sua obra máxima, “A Alma e o Deserto”, foi editado em 1941 (recebeu então o Prémio Antero de Quental).
Mas os acontecimentos de 1974 inspiraram a Cortez Pinto sentidos versos: estes, que não sei se serão os derradeiros, uma vez que o autor ainda viveu alguns anos, porém o certo é que do seu labor final só lhe conheço obra de outro género (“Dyónisos, poeta e rey"), editada já por seu filho João Manuel Cortez Pinto.


Cravos de Abril

Tropas na rua! E o povo à solta
Inebriado, cheirando a revolta
Canta e blasfema! Prazeres dilectos:
E pra amanhã traça projectos
De revinditas, de desagravos...

Entretanto enfeita com rubros cravos
Armas e ódios escondidos
Numa ansiedade febril!

E os cravos rubros, todos floridos,
Cantavam notas de alegria
Na inquieta e equívoca harmonia
Do alegre dia
Primaveril!

Então corria
O mês de Abril.

Hordas ignaras, ululantes,
Gritando e uivando, vociferantes,
Atordoam terra e Céus!

Também um dia os judeus
Falando em Pátria, aos cem e aos mil,
Cegos com ódio à Verdade e à Luz
(Era também no mês de Abril!)
Mataram Cristo Jesus!

Cravos vermelhos, cantiga em flor!
Idade núbil, beijos de amor!
Paixão ardente, Luz e Poesia!
Graça e lirismo!
Perfume cálido e subtil!...

Porém eu cismo
Naquele dia
Em que entre as vascas duma agonia
Cravos também de duro hastil
Tintos de sangue, sangrando Luz
(Era também no mês de Abril!)
Cravaram Cristo numa cruz.

Dobre a finados, dia de Paixão!
Os judeus ganharam! De novo cá estão!
Mas a grande Pátria, a Pátria de meus Pais,
Morreu em Abril e não ressurge mais....


Américo Cortez Pinto

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« Responder #4 em: Março 30, 2009, 04:06:06 »

Engraçado, tava aqui a procura no google e dei com este topico é que Américo Cortez Pinto era o meu bisavo, entretanto o meu pai tem estado a passar para o computador pequenos poemas dele coisas que nunca foram publicadas etc, a ver se o encorajo a completar a pagina do wikipedia.já agora descobri que foi ele um dos grandes impulsionadores para que a Escola Portuense de Belas-Artes fosse integrada no sistema de ensino superior com a denominação de Escola Superior de Belas-Artes do Porto, e mais tarde a de Lisboa.vi no outro dia uma carta de agradecimento/condecoração.
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