Ricardo de Vasconcelos
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« em: Julho 23, 2008, 21:49:24 » |
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Artigo de Paulo Moura in "Público", 18 de Fevereiro de 2007 Semiótica do Palavrão Em nenhum outro lugar do país se fala um português tão rico como no Porto. Perdoem-me os bem-falantes de todas as latitudes, mas eu, que já morei em muitas terras, nunca vi acariciar as palavras como no Porto. E não me refiro às camadas cultas. Por mais que isto custe aos lusos doutores, na invicta, o povo apoderou-se do verbo. "No Porto?", pasmará um lisboeta. "Eu quando lá vou só ouço palavrões!" Precisamente. Esse é um exemplo fascinante. No resto do país, os palavrões são usados em situações extremas, para mostrar desagrado por uma situação, ou para insultar alguém, que pretendemos rebaixar. E, usando-os, rebaixamo-nos a nós próprios também. É para isso que servem: para reduzir à obscenidade.
No porto, os palavrões não são obscenos: são uma arte e uma filosofia. Não sei se algum linguista analisou alguma vez este fenómeno. Mas valia a pena. Primeiro porque, no Porto, os palavrões são fiéis à sua natureza - são vulgares e ordinários. Não são, como noutras regiões, raros e extraordinários. São de todos, e não de uma elite indecente. Depois, porque servem para exprimir uma sabedoria.
A táctica é esta (e digo-o com todo o respeito e admiração pela terra onde nasci): há um jogo de metáforas, todas elas referentes ao acto sexual, que servem para compreender a vida. É um universo alegórico em que o sexo não é mais do que um exercício utilitarista de dominação e humilhação, uma economia do dar e do receber, um negócio de favores, promessas e cobranças. Visto desta forma, a vida erótica comporta uma panóplia de situações que correspondem a outras tantas da vida em geral. Atenção, trata-se de um jogo tácito, e não de um machismo empedernido ou um marxismo de caserna. Por exemplo, se se disser que alguém "apanhou no c. e nem piou", isto significa que foi vítima de um abuso tão descarado que nem teve tempo de protestar. A expressão aplica-se a situações tão variadas como ter pago um preço exagerado num restaurante ou ter sido despedido sem justa causa. Parte do princípio de que o sexo anal é um acto de prazer unilateral, que implica portanto a humilhação do sujeito passivo.
Por outro lado, a expressão "tenho apanhado muito no c." significa que já sofri muito na vida, pelo que estou preparado para grandes desafios. Uma expressão equivalente mas talvez ainda um pouco mais amarga é "eu já fiz muitos b."
Se alguém responder a um pedido ou a uma proposta com a frase "na c. da tua tia!", isso significa uma recusa peremptória, como quem diz "isso é que era bom!" ou "isso é o que tu querias!", numa alusão ao eventual desejo subliminar e inconfessado de ter acesso às partes íntimas de figuras respeitáveis da família. Mas, se a frase for "até rima da c. da tua prima", significa um sinal de cumplicidade. A simples alteração do grau de parentesco implica uma reviravolta semântica. É todo um jogo de subtilezas. Mais um exemplo: as elocuções "p. que te pariu" ou "filho da p." são inequivocamente negativas, pois pressupõem que a mãe do interlocutor seria uma trabalhadora do sexo, pelo que o coito que deu origem àquele terá sido, não de amor, mas um acto mercantil. Pelo contrário, dizer "meu grande filho da p." é um gesto de carinho, talvez por sugerir que o indivíduo em causa, por se ter comportado como um grande filho, merece o respeito e a protecção da sociedade, apesar das circunstâncias pouco auspiciosas em que foi concebido.
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Ricardo de Vasconcelos
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« Responder #1 em: Julho 23, 2008, 22:19:49 » |
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"Caralho" -> topo do mastro principal das naus (equivalente ao cesto da gávea). "Merda" -> do latim "merda" (excremento). "Pila" -> do latim "Pilum", lança comprida com ponta de ferro e cabo de madeira. "Colhão" -> do latim "coleo", bolsa de couro. "Foder" -> do latim "Futuere", penetrar ou escavar. "Cona" -> do latim "Cunnus", vulva. "Puta" -> do latim "Putta", menina (embora alguns autores indiquem que "puta" era a mulher que deu à luz, sinónimo de "mãe"). "Cú" -> do latim "culus", nádegas "Cornudo" (no sentido de "pessoa traída pelo(a) companheiro(a) -> (resposta dada por Claudio Moreno no site http://www.sualingua.com.br/02/02_cornudo.htm ) Os cornos não eram o símbolo da pessoa que é traída pelo(a) parceiro(a), mas representavam energia, comando e potência sexual: todos os sátiros da mitologia tinham chifres, e os guerreiros vikings, bem como os gauleses da aldeia de Asterix, portavam-nos orgulhosamente em seus capacetes. Ovídio, no Canto XV das Metamorfoses, descreve, sem a menor ironia, o episódio em que Cipus, o famoso negror romano, acorda certo dia com um portentoso par de cornos na cabeça, simbolizando o glorioso papel que desempenharia no futuro de Roma - história que não poderia ter sido narrada por um escritor medieval ou renascentista sem um inevitável sentido burlesco (fico só imaginando o efeito que esta passagem de Ovídio teria no meu tempo de ginásio, em que desatávamos a rir maldosamente só porque mencionavam a Cornualha, na Inglaterra, ou as famosas jóias de Cornélia ...). Além de símbolo da força, os chifres eram - e são, até hoje - considerados uma poderosa defesa contra o mau-olhado e a feitiçaria, seja na sua forma córnea natural, seja no conhecido sinal que se faz com a mão fechada, deixando o indicador e o mindinho estendidos. O certo é que, num dado momento, por motivos inexplicáveis, estabeleceu-se uma associação entre a traição e os chifres. Todas as hipóteses conhecidas são fantasiosas demais, ou vagas demais, ou localizadas demais para justificar a difusão desse símbolo por todos os países do Ocidente, pois mesmo na Inglaterra e na França, em que o marido traído é associado, por razões também obscuras, ao pássaro cuco - cuckold (ing.) e cocu (fr.) -, os chifres estão lá, ornando a testa de todos os infelizes que foram minotaurizados. Voltaire, por exemplo sustentava que o costume viria dos gregos, que chamavam de bode ao marido traído pela mulher (segundo ele, a cabra, na cultura grega, era o símbolo da fêmea dissoluta); no entanto, se isso fosse verdade, os romanos, que herdaram e absorveram a cultura grega, teriam conservado a tradição - coisa que não ocorreu, como o texto das Metamorfoses bem demonstra. Outros preferem buscar a explicação no brumoso passado dos celtas; das inúmeras versões, a mais conhecida envolve Cernunos, um dos principais deuses gauleses, que presidia a vinda da Primavera, representada por um ancião com a cabeça enfeitada por chifres de veado. Segundo a lenda, ele vive embaixo da terra, mas sempre que sua mulher o engana - o que ela parece fazer regularmente, todos os anos - ele sobe à superfície, trazendo consigo o fim do inverno. Os antropólogos, por sua vez, lembram que em muitas aldeias da Europa primitiva a comunidade costumava humilhar o marido cuja mulher desse à luz um filho de outro homem, obrigando-o a desfilar com a cabeça ornada por chifres de boi ou de cervo - mas não explicam por que escolhiam o chifre, e não o rabo, ou o casco, ou a pele do animal, o que teria nos dado rabudos, cascudos e peludos, em lugar de cornudos.
Uma versão literária atribui a origem deste símbolo ao relato que faz Geoffrey de Monmouth em sua obra A Vida de Merlin (1148): o famoso mago Merlin retirou-se para a solidão da floresta, insinuando à sua mulher Gwendolina que não se importaria muito se ela casasse de novo, desde que ele não fosse obrigado a conhecer o felizardo. Um dia, no entanto, os astros lhe informam que o casamento dela está próximo e ele se dirige ao seu antigo palácio, montado num cervo, acompanhado de muitos outros animais selvagens, para levar-lhe o seu presente de bodas. Ao chegar lá, sua ex-mulher e o namorado estão em uma das janelas da torre e riem muito da estranha comitiva de Merlin, o qual, furioso, arranca os cornos de um cervo e arremessa-os contra o pretendente, matando-o instantaneamente e fazendo-o descer ao mundo dos mortos com uma bela galhada na testa. Esta, a meu ver, é a menos provável, pois acaba colocando os cornos no traidor, não no traído.
As outras versões que correm por aí são ainda mais fantasiosas, prezada leitora, e não acho que valha a pena relatá-las - e, o que é mais importante, nenhuma delas explica o porquê da escolha do chifre como símbolo do marido traído, e não da orelha, do focinho ou da ponta do rabo. Câmara Cascudo, o nosso grande arqueólogo dos costumes, estudou a cornudagem no seu Dicionário do Folclore Brasileiro e declarou, com humildade, ao examinar esse valor pejorativo que o símbolo dos chifres foi adquirindo com o tempo: "Para mim, é inexplicável" - o que já chega para este seu criado. Se ele, que é um sábio, confessa que não sabe, não vamos nós, meros figurantes do presépio, ter a pretensão de descobrir.
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« Última modificação: Julho 24, 2008, 09:43:20 por DuxBellorum »
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