Ricardo de Vasconcelos
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« em: Outubro 20, 2009, 18:42:25 » |
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Do Urinol de Duchamp a José Sócrates Via Mos Maiorum
Há 92 anos, Marcel Duchamp participou na exposição da Sociedade de Artistas Independentes com uma obra que se tornaria mais tarde num dos grandes marcos da Arte Contemporânea. Pegou num vulgar urinol, assinou-o com o pseudónimo R. Mutt e chamou à obra A Fonte. Desta forma, Duchamp enviou uma mensagem que atingiu o mundo inteiro: tudo podia ser considerado “arte” desde que fosse internegrado como tal. Para trás ficava a Arte como índice da perícia técnica, do estatuto e do Belo. A partir da exposição de 1917, gradualmente, o mundo da Arte foi dando cada vez mais importância ao conceito e menos às capacidades técnicas e perícia do autor. Se tudo estava dependente da perspectiva, da maneira como a obra seria internegrada, então as propriedades eram relativas e podiam ser manipuladas. A percepção do público dependia mais dos artifícios e da forma como a obra seria exposta do que das qualidades intrínsecas do objecto. Com A Fonte de Duchamp nasceu o conceito de ready-made, a utilização de um objecto que já está feito, mas que ao ser colocado noutro contexto, adquire um sentido novo. Um vulgar urinol, um produto industrial cuja finalidade é tudo menos nobre, transforma-se subitamente numa Obra de Arte no momento em que é colocado em exposição. E um Primeiro-Ministro? Seria possível pegar num homem igualzinho aos outros, nas virtudes e nos defeitos, daqueles que parecem ter sido produzidos numa linha de montagem, e transformá-lo no líder da governação nacional? José Sócrates é um artefacto, tal como um urinol. Não o pretendo insultar. Apenas afirmo que ele foi produzido pelo engenho humano. Não nasceu; foi criado. Ninguém lhe conhece rasgos de criatividade nem traços de brilhantismo. Nem sequer a originalidade que a Natureza confere até ao mais insignificante ser vivo. O Primeiro-Ministro é um fato azul-escuro encabeçado por um cabelo grisalho. Um ser falante de gestos abertos e postura treinada. Tem um sorriso falso e uma voz que projecta sempre no mesmo tom. Usa as palavras-chave que aprendeu na vulgata demagógica: “desenvolvimento”, “democracia”, “trabalho”, “verdade”, “rigor”, e por aí fora… O que distingue um ser com alma de um produto em série é, sobretudo, a existência de uma genealogia. Qualquer coisa que tenha vida própria foi precedida por uma história, um percurso que lhe deu forma e o fez evoluir até ao estado actual. Um produto industrial, e por consequência um ready-made, é um ser que caiu de pára-quedas no mundo. José Sócrates tem um passado, como qualquer pessoa. Mas o seu percurso de vida é tão medíocre que não pode ter tido em conta. Foi um aluno vulgar e isto é o melhor que se pode dizer da sua carreira escolar e académica. Como engenheiro nunca se destacou. Ninguém lhe conhece um mísero contributo para a Causa Pública. Ascendeu no Partido Socialista, mas como ser político é tão artificial como uma esferográfica Bic. Qualquer político procura ser uma alegoria, representar valores morais que sejam bem-vistos pela sociedade do seu tempo. O marketing político sempre existiu, mas no passado era o percurso de vida do governante que lhe conferia as propriedades evocativas. Hoje em dia, é o marketing político que constrói o governante, como um ready-made pronto-a-servir. O Passado não interessa porque o Primeiro-Ministro foi feito para “consumir” no momento. Quando uma alegoria deixa de servir, triturada pela marcha do tempo, o aparelho partidário constrói outra, adaptada às novas sensibilidades dos eleitores. A diferença entre José Sócrates e uma garrafa de Coca-Cola é que o público identifica o famoso refrigerante como produto industrial, artificial e projectado por uma equipa de Marketing. O Primeiro-Ministro é um objecto de consumo mas ninguém o vê como tal. E é por essa razão que segue a linha do urinol de Duchamp.
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Ricardo de Vasconcelos
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« Responder #2 em: Fevereiro 08, 2010, 23:28:47 » |
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 isso não sei. Olha neste momento, prefiro seguir o conselho de Jesus: abrir os olhos e o coração, em vez da mente.
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